A Ilusão do Sofrimento Exclusivo


Caminhar pelas calçadas de uma grande cidade ou, o que dá no mesmo hoje em dia, rolar a tela de um smartphone produz uma ilusão curiosa. Olhamos ao redor e topamos com uma profusão de existências aparentemente resolvidas. No transporte público, rostos imperturbáveis; no ambiente virtual, uma sucessão de palcos iluminados, viagens impecáveis e sorrisos sob medida. Diante dessa vitrine, a reação neurótica mais comum é o recolhimento imediato. É aí que o desamparo se transforma em isolamento: passamos a acreditar que a angústia, o medo do fracasso e a sensação crônica de inadequação são privilégios, ou maldições, exclusivamente nossos.
O sofrimento oculta um traço paradoxalmente narcisista. Quando a dor aperta, a percepção se estreita de tal forma que nos julgamos únicos. É como se disséssemos a nós mesmos: “Ninguém nunca experimentou uma fratura interna deste tamanho”. Essa fantasia de exclusividade serve, no fundo, para nos proteger de uma verdade mais desconfortável: a de que nossa dor não tem nada de extraordinária. Ela é terrivelmente comum.
Atrás do sujeito bem-sucedido que projeta segurança em uma reunião de negócios, frequentemente habita o pavor infantil de ser desmascarado como uma fraude. Na vivacidade do jovem cercado de amigos, não raro opera uma solidão ensurdecedora. A neurose cotidiana nos faz comparar os nossos bastidores, cheios de remendos, dúvidas e hesitações, com o espetáculo ensaiado que os outros decidiram encenar. É uma conta que simplesmente não fecha.
A psicanálise nos lembra, sem qualquer sentimentalismo, que a experiência humana é estruturada em torno de uma falta fundamental. Não há existência plena, sujeito totalmente resolvido ou casamento sem fissuras. O desejo se move justamente porque algo nos escapa continuamente. O que o imperativo contemporâneo da felicidade tenta esconder a todo custo é que a incompletude não é um defeito de fabricação individual, mas a nossa própria condição biográfica.
A grande ironia das nossas vidas é que aquilo que mais tentamos ocultar por vergonha, as nossas fragilidades e o medo do desamparo, é precisamente o que nos conecta ao restante da espécie. Quando alguém finalmente abdica da máscara e confessa a sua própria fraqueza, o que se produz não é o julgamento, mas um alívio coletivo. Abre-se uma fresta na muralha das aparências.
Reconhecer que o outro também cambaleia não elimina o peso do nosso próprio fardo, nem banaliza a nossa dor. Mas destitui o sofrimento de sua solidão soberba. No fim das contas, por trás dos títulos acadêmicos, das conquistas financeiras e das identidades sociais que ostentamos, compartilhamos todos o mesmo Ofício: a tentativa sempre provisória, e muitas vezes canhestra, de lidar com a complexidade de estar vivo. Ninguém está imune a essa tarefa.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















