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Consumo abusivo de álcool avança no Brasil e afasta país de metas de redução de abuso até 2030

Redação26 de junho de 202612min0
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Levantamentos nacionais mostram aumento puxado pelas mulheres e alta entre meninas adolescentes

Dois estudos publicados em 2025 traçam um retrato preocupante do consumo de álcool no Brasil neste Dia Internacional de Combate ao Abuso de Drogas, celebrado nesta sexta-feira (26): enquanto a parcela de adultos que bebeu no último ano recuou, o consumo abusivo cresceu em quase todas as faixas etárias, mais que dobrou entre as mulheres e ganhou força entre as meninas adolescentes.

O cenário coloca o país em rota de colisão com as metas de redução estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e pelo próprio governo brasileiro para o fim desta década e é reforçado por dados regionais da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que posicionam o Brasil entre os maiores consumidores da América, com a maior projeção de alta per capita de toda a região até 2030.

O artigo “Tendência temporal do consumo abusivo de bebidas alcoólicas e suas projeções para 2030 nas capitais brasileiras”, da professora e pesquisadora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado em março deste ano na “Revista Brasileira de Epidemiologia”, apontou que o consumo abusivo de bebidas alcoólicas (cinco doses ou mais para homens e quatro ou mais para mulheres em uma mesma ocasião) subiu de 15,7% para 20,8% da população.

O crescimento foi puxado pelas mulheres, cujo índice mais que dobrou, de 7,8% para 15,2%, enquanto entre os homens a taxa permaneceu estatisticamente estável, oscilando de 25% para 27,3%. Por faixa etária, o aumento apareceu na maioria dos grupos, com exceção dos adultos de 45 a 54 anos e dos jovens de 18 a 24 anos no recorte de capitais. O diagnóstico parte de dados do Vigitel – sistema de vigilância do Ministério da Saúde por inquérito telefônico com adultos a partir de 18 anos nas capitais e no Distrito Federal – entre 2006 e 2023.

O quadro é confirmado pelo 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), divulgado em setembro de 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A pesquisa ouviu 16.608 pessoas de 14 anos ou mais em todo o país e identificou um movimento aparentemente paradoxal: a proporção de adultos que bebeu no último ano caiu de 47,7% em 2012 para 42,5% em 2023, mas o uso entre adolescentes cresceu, especialmente entre as meninas.

Entre quem bebe, o padrão continua preocupante: um em cada três consumidores pratica episódios pesados de consumo (com seis doses ou mais por ocasião) e um em cada nove preenche critérios para transtorno por uso de álcool. O impacto financeiro também é expressivo – segundo o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), o Estado gasta cerca de R$ 19 bilhões por ano com as consequências do consumo, sendo R$ 1,1 bilhão em custos diretos do Sistema Único de Saúde (SUS) e R$ 17,7 bilhões em custos indiretos, como perda de produtividade e aposentadorias precoces.

A experiência clínica confirma a tendência entre adolescentes. Na Abraço, associação de Belo Horizonte especializada no acompanhamento de dependentes químicos, 36,4% dos adolescentes atendidos têm histórico de uso de álcool e outras drogas. Para o presidente da instituição, Gladstone Otoni, as meninas ainda recorrem ao discurso do “uso social e consciente”, mas os intervalos entre os episódios de consumo têm ficado cada vez menores, acompanhando uma agenda social cada vez mais intensa.

“A busca por aceitação, a necessidade de pertencimento ao grupo, a escassez de opções de lazer e o enfraquecimento dos vínculos familiares induzem as jovens ao uso precoce”, afirma. A conduta é reforçada por fácil acesso a bebidas, falta de fiscalização e um ambiente familiar que, em vez de funcionar como proteção, muitas vezes “naturaliza e incentiva o hábito entre os pares”, afirma.

Otoni também alerta para os danos que o álcool pode causar nessa fase: “O uso precoce de álcool e outras substâncias psicoativas pode comprometer funções essenciais, como memória, aprendizagem, atenção, tomada de decisões e controle dos impulsos, além de aumentar o risco de dependência e de diversos agravos sociais e de saúde ao longo da vida”.

Diagnóstico nas Américas

O “Informe sobre a Situação do Álcool e a Saúde na Região das Américas 2025”, relatório recém-publicado pela Opas com base em levantamento mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2024 – que usa 2019 como ano de referência para evitar distorções causadas pela pandemia –, mostra que o consumo per capita de álcool no Brasil foi de 7,7 litros (L) de álcool puro por habitante naquele ano, acima da média global de 5,5 L e suficiente para posicionar o país entre os oito maiores consumidores das Américas, a segunda região do mundo em consumo, atrás só da Europa. Entre quem bebe regularmente, o consumo médio brasileiro de 13,3 L por pessoa ao ano supera a média global de 12,4 L, com homens consumindo 18,5 L e mulheres, 6,7 L.

O relatório registrou 91.927 mortes atribuíveis ao álcool no Brasil em 2019 (80.461 entre homens e 11.466 entre mulheres), o equivalente a 6,7% de todos os óbitos no período, colocando o país como segundo nas Américas em mortes absolutas relacionadas ao álcool, atrás apenas dos Estados Unidos (149.867).

Em anos de vida ajustados por incapacidade (Avai) – equivalente a um ano de vida saudável perdido devido à morte prematura ou à vivência com alguma incapacidade ou problema de saúde –, o Brasil acumulou 4,9 milhões, contra 6,6 milhões dos estadunidenses e 2 milhões do México, terceiro colocado da região.

Com relação aos padrões de consumo, o chamado “binge drinking” – ingestão excessiva em uma única ocasião – atingiu 25,7% da população adulta das Américas em 2019, com prevalência de 35,9% entre homens e 15,8% entre mulheres; no Brasil, o índice entre consumidores habituais chegou a 35,3%, acima da média regional. Na população geral, o comportamento no público feminino brasileiro fica em 11,8%, abaixo da média das Américas (15,8%) e distante de países como Peru (24,9%) e Estados Unidos (21,2%), mas acima da média global (9,7%).

O documento da Opas também registrou que 41,9% dos adolescentes de 15 a 19 anos nas Américas relataram consumo de álcool em 2019 (43,9% entre meninos e 39,7% entre meninas), a segunda maior prevalência do mundo nessa faixa, atrás só da Europa (44%), índice classificado pela organização como “inaceitavelmente alto” diante da proibição legal de venda para menores em todos os países da região.

Projeção afasta país de cumprimento de meta

O consumo per capita brasileiro de álcool, que recuou ligeiramente de 7,7 L para 7,6 L entre 2019 e 2025, deve saltar para 12,1 L em 2030 caso não haja mudança nas políticas públicas, afirma o relatório da Opas – o maior aumento projetado entre todos os países das Américas, na contramão da tendência mundial de leve queda no pós-pandemia.

Para reverter os indicadores, a Opas aponta o fortalecimento do pacote técnico SAFER, que recomenda restringir a disponibilidade de álcool, combater a direção alcoolizada, ampliar o acesso a triagem e tratamento, restringir a publicidade de bebidas e aumentar preços via tributação – medidas que, segundo o documento, foram adotadas de forma consistente apenas pelos países que conseguiram reduzir o consumo nas últimas décadas.

As projeções do estudo da UFMG confirmam a trajetória e mostram o tamanho do desafio: caso as tendências observadas entre 2015 e 2023 se mantenham, a prevalência do consumo abusivo nas capitais deve chegar a 22,2% em 2030 – não só o oposto da redução de 20% estabelecida pelo Plano de Ação Global sobre o Álcool 2022-2030 da OMS, aprovado pela 75ª Assembleia Mundial da Saúde, como também distante da meta de redução de 10% que o próprio Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil fixou especificamente para esse indicador.

Para Gladstone Otoni, da Abraço, o crescimento do consumo “é impulsionado por uma combinação de transformações sociais, pressões cotidianas e estratégias de mercado” e já se reflete em aumento direto na busca por atendimento na instituição.

“O uso abusivo de bebidas alcoólicas está associado ao aumento de doenças crônicas, transtornos mentais, acidentes de trânsito, violência doméstica, conflitos familiares, evasão escolar e dificuldades no desempenho profissional, gerando impactos significativos para os indivíduos, suas famílias e a sociedade”, conclui.

Fonte: O Tempo

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