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Não podemos agradar a todo mundo

Ed Gonçalves30 de junho de 202610min0
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por Ed Gonçalves

Existe uma indagação que, em algum momento da existência, impõe-se a cada um de nós: por que a recusa nos é tão laboriosa? Por que, com frequência deliberada, assentimos ao que nos violenta, silenciamos diante da urgência do dizer e nos demoramos em cenários de adoecimento apenas para poupar o outro da frustração?

A gênese desse impasse ultrapassa as convenções sociais ou os imperativos da educação. Ela reside na mais arcaica e profunda das vulnerabilidades humanas: a necessidade de ser amado.

Historicamente, a infância inaugura esse circuito. A criança apreende de forma precoce que a docilidade é recompensada com o afeto, enquanto a singularidade de seus impulsos pode despertar o hiato do silêncio, a reprovação ou o distanciamento. É nessa dinâmica que se edifica uma premissa perigosa: a de que a dignidade do amor está condicionada ao espelhamento das expectativas alheias.

Essa lógica infantil, frequentemente intocada pela crítica, atravessa a adolescência e solidifica-se na vida adulta. Passa-se a operar sob o dogma de que decepcionar o semelhante constitui uma falta imperdoável. Emerge daí a culpa — uma culpa que paralisa o sujeito quando este tenta delimitar as próprias fronteiras, escolher itinerários dissonantes ou simplesmente reivindicar a autoria da própria vida.

Há, contudo, um real incontornável: viver implica, necessariamente, frustrar alguém.

Toda escolha opera por subtração. A adoção de um percurso profissional, a constituição de um laço familiar ou a adesão a um projeto demandam a renúncia a infinitas outras possibilidades. O sofrimento contemporâneo muitas vezes decorre da recusa em suportar essa perda fundamental, levando o indivíduo a organizar a totalidade de sua existência em torno da demanda do Outro.

O custo desse movimento é devastador. Testemunha-se a permanência em carreiras áridas, a insistência em vínculos afetivos falidos e a assunção de responsabilidades vicárias. Na tentativa hiperbólica de amparar a todos, o sujeito desampara a si mesmo.

A tradição filosófica há muito adverte sobre o equívoco de tentar administrar o imponderável: o julgamento alheio. É possível agir com retidão e responsabilidade ética, mas o olhar do outro permanece fora de nosso controle. Ainda assim, despende-se um vultoso montante de energia psíquica na ilusão de gerenciar a opinião alheia, como se a validação externa fosse o fiador do valor ontológico do sujeito.

A psicanálise elucida esse fenômeno ao demonstrar que a constituição do sujeito se dá, inevitavelmente, na relação com o Outro. O reconhecimento é estruturante. O impasse clínico e existencial se estabelece quando a alienação é total: quando o indivíduo passa a existir única e exclusivamente para saturar esse olhar. Nesse ponto, cessa a autoria e inicia-se uma performance alienada.

Eis a razão do esgotamento moderno. Não se trata apenas da sobrecarga laboriosa, mas da fadiga da sustentação de um personagem. Cansa a concordância simulada, o riso protocolar e o peso de uma máscara de invulnerabilidade quando o corpo clama apenas por um lugar de repouso e verdade.

Cumpre distinguir a alteridade ética — que é gentil e nasce da liberdade — da subserviência neurótica, que nasce do temor. Medo da rejeição, da destituição amorosa, do veredicto de egoísmo e da insuficiência.

Diante disso, a questão fundamental que se impõe não é a quem corremos o risco de decepcionar nas esquinas da vida. A verdadeira tragédia silenciosa reside em constatar que, após anos resguardando as expectativas do mundo, o preço pago foi a autodecepção.

A vida em sociedade exige, decerto, implicação e responsabilidade pelo impacto de nossas ações no outro; não se preconiza aqui o cinismo ou o isolamento narcísico. O desvio reside na transformação da aprovação em uma necessidade vital. O sujeito que carece do aplauso contínuo abdica da soberania sobre o próprio destino.

A maturidade talvez se inaugure quando se aceita a renúncia à exigência de admiração universal. A coerência interna substitui a demanda de aprovação externa. Isso não nos isenta de causar desapontamentos; significa apenas que o medo deixará de exercer a função de bússola nas decisões subjetivas.

As figuras que historicamente provocam nossa admiração não foram aquelas que buscaram o consenso, mas as que sustentaram o peso de sua singularidade a despeito das incompreensões e dos julgamentos da época. Compreenderam que o contentamento universal é uma quimera, ao passo que a reconciliação consigo mesmo é o único solo firme possível.

Portanto, a formulação ética que deve orientar o sujeito contemporâneo desloca-se da preocupação com o Outro para uma interrogação sobre si: “Quem estou me tornando para evitar a frustração alheia?”

Afinal, na tentativa obstinada de salvar as aparências e garantir o amor do mundo, corre-se o risco de esquecer justamente daquele que nos acompanha do nascimento ao desfecho: nós mesmos.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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