Sustentar o próprio desejo

Há uma frase que parece simples, mas que pode ser muito difícil de colocar em prática: sustentar o próprio desejo. Muitas vezes sabemos o que queremos, mas, quando percebemos que esse desejo pode desagradar alguém, provocar uma mudança ou nos colocar diante de alguma perda, começamos a recuar. Pensamos demais, procuramos justificativas e tentamos descobrir o que os outros esperam de nós. Aos poucos, aquilo que desejávamos vai sendo deixado de lado e passamos a viver mais em função das expectativas dos outros do que daquilo que realmente desejamos.
Desde muito cedo aprendemos que determinadas escolhas agradam, enquanto outras decepcionam. Buscamos aprovação, reconhecimento e aceitação. Isso faz parte da vida em sociedade, mas o problema aparece quando a expectativa do outro ocupa tanto espaço que já não conseguimos escutar aquilo que queremos. Podemos escolher uma profissão para agradar a família, permanecer em uma relação por medo da solidão ou abandonar um projeto por medo do julgamento. Em situações assim, passamos tanto tempo tentando corresponder ao outro que já não sabemos muito bem o que queremos para nós mesmos.
Sustentar o próprio desejo não significa fazer tudo o que queremos ou agir de maneira egoísta. Significa reconhecer aquilo que desejamos e assumir responsabilidade diante disso. O desejo nos coloca diante de uma pergunta que ninguém pode responder por nós: o que faremos com aquilo que desejamos?
Essa pergunta também nos coloca diante da falta. Na psicanálise, o desejo não desaparece definitivamente quando conseguimos aquilo que queríamos. Podemos conquistar uma relação, um trabalho, reconhecimento ou qualquer outro objetivo e, ainda assim, continuar desejando. Isso acontece porque alguma coisa sempre permanece faltando. A falta não é um defeito que precisa ser eliminado, mas parte da própria condição humana.
Por isso, sustentar o desejo é também sustentar a falta. Toda escolha implica alguma renúncia. Quando escolhemos um caminho, outros ficam para trás. Quando dizemos “sim” para alguma coisa, também dizemos “não” para outras possibilidades. Muitas vezes é justamente a dificuldade de suportar essa perda que nos impede de escolher. Permanecemos onde estamos não necessariamente porque queremos permanecer, mas porque temos medo da angústia que acompanha uma mudança.
Existe uma ideia fundamental na psicanálise de que não devemos simplesmente ceder diante do nosso desejo, abandonando aquilo que nos implica para viver de acordo com as expectativas do outro. Isso não significa realizar todos os nossos desejos ou ignorar os limites da realidade. Significa não transformar o medo, a culpa ou a necessidade de aprovação em motivos permanentes para desistirmos de nós mesmos.
Abdicar do próprio desejo pode parecer a escolha mais segura. Se não escolho, não corro o risco de errar. Se não tento, não posso fracassar. Mas essa segurança também pode ter um preço: a dor de perceber que passamos anos vivendo uma vida que não era exatamente nossa.
Sustentar o próprio desejo não significa ter certeza ou garantia de que tudo dará certo. Significa reconhecer o medo e, ainda assim, não permitir que ele decida tudo por nós. A vida envolve escolhas, perdas, incertezas e faltas. Não podemos ter todas as possibilidades ao mesmo tempo, mas podemos assumir a responsabilidade pelo caminho que escolhemos.
Sustentar o próprio desejo é sustentar também a falta, aceitar que alguma coisa sempre ficará para trás e compreender que nenhuma escolha será completa. No fim, a pergunta não é apenas “o que eu quero?”, mas “o que estou disposto a sustentar para não abandonar aquilo que desejo?”. Porque ninguém consegue viver sem abrir mão de alguma coisa. A questão é saber se estamos abrindo mão por uma escolha nossa ou se estamos simplesmente desistindo de nós mesmos para caber na expectativa dos outros.

Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















