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Amizades também precisam de manutenção: por que marcar encontros faz bem para a saúde mental

Redação30 de julho de 20269min0
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Correria da vida adulta faz muita gente deixar os amigos em segundo plano. Especialista explica por que cultivar essas relações é essencial para a saúde mental

“Vamos marcar qualquer dia”. A promessa costuma ser feita com sinceridade, mas, na vida adulta, esse “qualquer dia” muitas vezes nunca chega. Entre reuniões de trabalho, filhos, consultas médicas, academia e compromissos da rotina, as amizades acabam ocupando o último espaço da agenda – quando ocupam.

O problema é que, ao contrário do que muita gente acredita, os laços de amizade não sobrevivem apenas da boa vontade ou das lembranças compartilhadas. Eles também precisam de cuidado, presença e, principalmente, intenção.

Para a psicóloga Juliana Marcondes, coordenadora do curso de psicologia da Estácio BH, existe uma tendência natural de priorizar aquilo que parece mais urgente. “O trabalho tem prazo, a família demanda, o relacionamento amoroso ocupa um espaço importante, os filhos têm necessidades concretas. E a amizade, muitas vezes, fica naquele lugar do ‘depois eu vejo’. O problema é que aquilo que não é urgente acaba sendo negligenciado, mesmo sendo muito importante”, afirma.

Segundo ela, amizade está longe de ser um luxo. Os vínculos de amizade representam uma importante fonte de pertencimento, reconhecimento e suporte emocional ao longo da vida.

“Quando deixamos a amizade sempre para depois, podemos perder uma rede afetiva importante. Muitas vezes só percebemos o valor dessa rede quando atravessamos uma crise, uma separação, uma doença ou um período de muita solidão”, diz Juliana.

A professora Débora Vale, de 40 anos, faz questão de reservar espaço para as amigas justamente por acreditar nessa rede de apoio.

“As amizades nos fortalecem bastante no cotidiano. Entre mulheres isso é ainda mais importante. Existe uma ideia equivocada de competição entre nós, mas tenho visto cada vez mais como essas relações acolhem, protegem e precisam ser fortalecidas”, explica.

Ela afirma que colocar as amigas na agenda nunca foi um peso. “É um carinho para nós duas. Hoje as rotinas são muito diferentes, mas a gente sempre consegue encontrar um jeito de incluir esses momentos”, conclui.

Nem toda amizade precisa ser diária
Existe uma crença bastante difundida de que amizades verdadeiras resistem a qualquer distância. Para Juliana Marcondes, isso pode acontecer, mas não significa que os vínculos dispensem manutenção.

“Relacionamentos precisam de investimento. Manutenção não significa conversar todos os dias. Significa demonstrar, de alguma maneira, que aquela pessoa continua sendo importante”, ressalta.

Esse cuidado pode aparecer de maneiras simples: uma mensagem inesperada, um áudio, uma ligação rápida, lembrar de uma data especial ou convidar para um café: “Existe uma diferença entre distância e ausência afetiva. Posso estar distante porque a vida está corrida, mas continuar emocionalmente presente. O problema é quando essa ausência passa a comunicar que aquela pessoa já não ocupa mais um lugar importante na minha vida”.

A professora e produtora cultural Tamires Benedito, de 27 anos, conhece bem esse desafio. Algumas de suas amigas moram em outras cidades, mas isso nunca significou o fim da amizade.
“Na vida adulta, em que a rotina é extremamente corrida, a amizade é fundamental para a nossa saúde mental. Nem sempre conseguimos nos ver, mas fazemos questão de manter esse elo, mesmo à distância”, conta.

Ela acredita que marcar um encontro é muito mais um gesto de afeto do que uma obrigação. “É um ato de atenção. Eu, por exemplo, nem sempre respondo rápido no WhatsApp. Mas, se marcar um rolê, eu estou lá”, comemora.

Criar espaço também é uma escolha
E, na opinião da psicóloga, um dos maiores erros é esperar que sobre tempo para os amigos: “A vida não vai necessariamente abrir espaço para aquilo que é importante. Muitas vezes somos nós que precisamos criar esse espaço.”

Por isso, ela defende que colocar um café, um almoço ou uma caminhada na agenda não tira a espontaneidade da amizade. Pelo contrário. “Se eu digo para uma amiga: ‘Vamos tomar um café daqui a três semanas?’, isso não significa que a amizade ficou burocrática. Significa que ela é importante o suficiente para eu reservar um espaço para ela na minha vida”.

Pequenos encontros costumam ser suficientes para manter os vínculos vivos. A psicóloga lembra que a amizade adulta exige mais flexibilidade do que na adolescência, quando a convivência era praticamente diária.

“Às vezes, um café de uma hora importa. Uma caminhada importa. Uma ligação de dez minutos importa. O que fortalece a amizade é a constância possível, não a frequência perfeita”, afirma.

Para Tamires, foi justamente o passar dos anos que mudou sua forma de enxergar essas relações.

“Quando eu era mais nova, achava que os amigos precisavam estar perto o tempo todo. Hoje entendo que isso muda com a maturidade. Algumas pessoas se afastam naturalmente, mas isso também me fez valorizar ainda mais os amigos que permaneceram”, explica.

Também faz bem pra saúde
Cuidar das amizades não é apenas uma forma de preservar boas lembranças ou garantir companhia para os momentos de lazer. Segundo a psicóloga Juliana Marcondes, investir nesses vínculos também é uma maneira de cuidar da própria saúde emocional.

Ela cita o Harvard Study of Adult Development, um dos estudos mais longos já realizados sobre desenvolvimento humano, que acompanha pessoas há quase 90 anos. A principal conclusão da pesquisa é que relações de qualidade estão diretamente associadas a mais felicidade, melhor saúde física e emocional e até maior longevidade.

“Quando falamos de saúde, normalmente pensamos em alimentação, atividade física, sono e exames médicos. Tudo isso é fundamental. Mas a ciência vem mostrando que a nossa vida relacional também faz parte da nossa saúde. Não é apenas sobre ter muitas pessoas ao redor, e sim sobre cultivar relações em que exista confiança, reciprocidade e a sensação de que podemos contar com alguém”, conta.

Na prática, isso não significa transformar a amizade em mais uma obrigação da rotina. Para a especialista, pequenas demonstrações de cuidado costumam ser suficientes para manter o vínculo vivo: uma ligação durante a semana, um café marcado com antecedência, uma mensagem lembrando de uma data importante ou até um simples “pensei em você hoje”. “A vida não vai necessariamente abrir espaço para aquilo que é importante. Muitas vezes somos nós que precisamos criar esse espaço. Cuidar das amizades é também cuidar de nós mesmos”, afirma.

Fonte: O Tempo

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