Com Super El Niño, especialistas alertam para impactos das alterações climáticas na saúde humana

Estudos publicados nos últimos dois anos por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a revista “Neurology” e a “The Lancet Planetary Health” confirmam que o aquecimento global já afeta diretamente a saúde da população, elevando o risco de doenças cardiovasculares, respiratórias, infecciosas e transtornos de saúde mental no Brasil e no mundo. Os efeitos variam conforme a região – calor extremo no Norte e Nordeste, chuvas intensas no Sul – e atingem de forma desproporcional idosos, crianças e populações socialmente vulneráveis.
O El Niño teve início em 11 de junho deste ano, e, segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), tem 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” – o que tem feito o fenômeno ser retratado como “Super El Niño”. Especialistas apontam que o cenário exige mais cuidados com a saúde e alertam para os riscos que condições climáticas extremas podem afetar a população.
Coração e cérebro
Temperaturas extremas – tanto de calor quanto de frio – alteram o funcionamento do sistema cardiovascular. O frio contrai os vasos sanguíneos e eleva a pressão arterial, enquanto o calor intenso causa desidratação, o que afeta os níveis de colesterol e reduz o fluxo sanguíneo. Ambos os mecanismos aumentam o risco de infarto e AVC. Um estudo publicado em abril de 2024 na revista “Neurology”, da Academia Americana de Neurologia, estimou que, em 2019, cerca de 521 mil mortes por AVC no mundo estavam associadas a temperaturas não ideais.
No Brasil, um levantamento da Fiocruz em parceria com a Universidade Federal da Bahia (Ufba), divulgado em junho de 2026, atribuiu mais de 120 mil mortes a ondas de calor no país entre 2000 e 2019 – a maioria por doenças cardiovasculares e respiratórias. O estudo identificou maior risco entre idosos, mulheres e pessoas com menor escolaridade. Para a infectologista Cristina Giovanetti dos Anjos, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, esse impacto já é uma realidade na rotina hospitalar. “Nos períodos de ondas de calor, observamos um aumento de casos de desidratação, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares, insuficiência renal e doenças respiratórias”, afirma. Ela explica que o corpo perde calor por meio do suor, o que pode levar à desidratação, queda da pressão arterial e sobrecarga de órgãos como rins e coração.
O infectologista Felipe Tuon, também dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, detalha que o principal impacto do calor intenso no curto prazo é a desidratação, seguida de vasodilatação periférica, que pode causar queda de pressão, tontura e desmaios. Em quadros mais graves, ele alerta, a temperatura corporal pode ultrapassar 40°C, caracterizando insolação – condição que pode levar a confusão mental, convulsões e risco de morte, principalmente em pessoas com doenças preexistentes. Alguns sinais, segundo os especialistas, exigem atendimento médico imediato: dor no peito, falta de ar, palpitações, desmaios, sonolência excessiva e confusão mental.
Ar e sistema respiratório
O aumento das temperaturas favorece a formação de poluentes que irritam as vias aéreas, como o ozônio troposférico, e intensifica fenômenos associados – secas, queimadas e chuvas extremas – que pioram a qualidade do ar. A poluição atmosférica já é reconhecida como agente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, na sigla em inglês), da Organização Mundial da Saúde (OMS), e está associada a maior risco de câncer de pulmão mesmo em pessoas que nunca fumaram.
Idosos são particularmente vulneráveis: além do maior risco de desidratação, a umidade excessiva dentro de casa favorece o mofo, o que agrava reações alérgicas e respiratórias. Ondas de frio mais intensas – também associadas às mudanças climáticas – favorecem, por outro lado, a circulação de vírus respiratórios como influenza, Covid-19 e coqueluche.
Distinguir um quadro respiratório agravado pela qualidade do ar de uma infecção viral comum nem sempre é simples, destaca Giovanetti. “Avaliamos o conjunto da história clínica, queixas e principalmente o exame clínico de cada pessoa”, explica. Segundo ela, quando a qualidade do ar piora, predominam tosse seca, irritação nos olhos e na garganta e piora da falta de ar, especialmente em quem já tem asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) – enquanto infecções virais costumam vir acompanhadas de febre, mal-estar e coriza.
Para pacientes com asma ou DPOC, Tuon recomenda manter rigorosamente o tratamento de controle, evitar exposição a fumaça de queimadas e cigarro, buscar ambientes ventilados e manter em dia a vacinação contra pneumonia, Covid-19 e influenza – além de ter sempre à mão a medicação de resgate, como broncodilatadores.
Doenças infecciosas e água contaminada
Períodos de chuva intensa e enchentes aumentam o risco de doenças transmitidas pelo contato com água contaminada, como leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas agudas. A leptospirose é transmitida pelo contato com urina de roedores infectados; os primeiros sintomas – dores no corpo (sobretudo nas panturrilhas), febre e icterícia – podem levar até 30 dias para aparecer após a exposição, e a doença pode evoluir para comprometimento renal, hepático e pulmonar.
A dengue segue como uma das principais arboviroses associadas ao clima mais quente e chuvoso, que favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Em 2024, o Brasil registrou 6.484.890 casos prováveis da doença e 5.972 mortes confirmadas, segundo o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde – um aumento de cerca de 400% nos óbitos em relação a 2023. Esse salto também já mudou o perfil dos pacientes atendidos, segundo Tuon: hoje é comum encontrar adultos e idosos com doenças preexistentes entre os casos mais graves, além de pacientes que já tiveram a doença antes – e correm maior risco de complicações ao serem infectados por um sorotipo diferente do vírus. “A dengue não trouxe apenas mais pacientes para os serviços de saúde, mas também um perfil de pacientes mais complexo”, afirma.
Há ainda evidências de que o aumento das temperaturas acelera a disseminação de genes de resistência bacteriana a antibióticos. Um estudo publicado em 2026 na “The Lancet Planetary Health”, que analisou 488.232 genomas de Salmonella coletados em 139 países entre 1940 e 2023, identificou um aumento global de 10% nesses genes de resistência associado às mudanças climáticas.
Saúde mental
A Associação Americana de Psicologia usa o termo “ecoansiedade” para descrever o medo crônico da catástrofe ambiental. Um estudo publicado em 2021 na “The Lancet Planetary Health”, com mais de 10 mil jovens de dez países – incluindo o Brasil –, apontou um nível alto de apreensão em relação ao clima: cerca de seis em cada dez participantes relataram estar muito ou extremamente preocupados, e quase metade afirmou que esses sentimentos prejudicavam sua vida diária.
Uma pesquisa conduzida no campus Butantã da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), identificou índices ainda mais altos entre universitários: a maioria se disse muito preocupada com fenômenos climáticos extremos, e quase 90% afirmaram acreditar que emergências climáticas podem colocar em risco a vida humana no planeta.
Na prática clínica, a ecoansiedade ainda aparece pouco de forma espontânea, mas a preocupação com eventos climáticos extremos já é frequente entre os pacientes, segundo os dois infectologistas ouvidos pela reportagem. “É importante acolher essas preocupações e, quando necessário, encaminhar para acompanhamento especializado”, pondera Giovanetti. Tuon acrescenta que, na prática, essa inquietação costuma aparecer mais associada a temas concretos – como ondas de calor, enchentes, queimadas e o aumento de doenças como dengue e leptospirose – do que como um diagnóstico nomeado.
Recomendações institucionais
O pico de intensidade do Super El Niño é esperado entre outubro e dezembro de 2026, com a anomalia de temperatura na superfície do Oceano Pacífico podendo superar 3°C acima da média – patamar que colocaria o evento entre os mais intensos já registrados, ao lado dos episódios de 1982, 1997 e 2015. Levantamento da MetSul Meteorologia mostra que o ritmo de aquecimento deste ano não tem precedentes para a época: em julho de 2026, a anomalia de temperatura na Região Niño 3.4, área de referência para monitorar o fenômeno, já estava entre +2,1°C e +2,2°C – patamar atingido cerca de quatro meses antes do que ocorreu no evento de 2023-2024.
Nos três episódios mais intensos já registrados (1982-83, 1997-98 e 2015-16), essa marca só havia sido alcançada entre o fim de agosto e novembro. Segundo a mediana das projeções climáticas mais usadas para acompanhar o fenômeno, a anomalia térmica pode chegar a +3,6°C até o fim do ano — patamar acima dos +2,75°C do evento mais forte já registrado. Diante desse cenário, o governo federal anunciou, em julho de 2026, R$ 1,3 bilhão em medidas para reduzir os impactos do fenômeno.
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) recomenda o fortalecimento da vigilância epidemiológica e da capacidade dos serviços de saúde para lidar com eventos climáticos extremos. O Ministério da Saúde orienta a eliminação de pontos de água parada para conter a proliferação do Aedes aegypti e alerta para o risco de outras doenças ligadas à contaminação da água, como cólera, febre tifoide e giardíase.
Reforço no sistema de saúde
Diante da chegada do El Niño, os hospitais já reforçam orientações para os grupos de maior risco: idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, diabetes, obesidade ou imunossupressão, além de trabalhadores expostos ao sol e populações em situação de vulnerabilidade social. Tuon pondera que isso não significa que outros grupos estejam livres de risco, mas que esses grupos têm menor capacidade de adaptação.
“No caso dos idosos, o organismo perde eficiência para regular a temperatura corporal e manter o equilíbrio dos líquidos”, explica. Já entre pessoas com menor escolaridade, o risco aumenta pela maior exposição ao calor em ambientes pouco climatizados e pelo maior número de trabalhadores em atividades ao ar livre. Tuon lembra que o fenômeno não se resume ao calor: períodos de chuva intensa e enchentes também elevam o risco de doenças infecciosas, o que exige atenção redobrada de quem vive perto de rios ou em áreas com histórico de alagamento.
Em junho deste ano, o Ministério da Saúde anunciou um plano de R$ 9,8 bilhões para preparar o Sistema Único de Saúde (SUS) para os efeitos das mudanças climáticas, com 27 metas e 93 ações previstas até 2035. O programa se estrutura em cinco frentes – coordenação, fortalecimento da capacidade de saúde, comunicação, vigilância e alertas, e reforço de insumos – e prevê a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima nas cinco regiões do país, além da expansão da Força Nacional do SUS para oito bases, com meta de resposta a emergências em até 12 horas.
Uma das ferramentas anunciadas é o Painel Nacional de Excesso de Calor, que oferece alerta precoce de até cinco dias de antecedência para riscos associados ao calor extremo. O ministério também divulgou um protocolo específico de cuidados com idosos em períodos de calor, que inclui oferecer água mesmo sem sede, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes, manter os ambientes ventilados, verificar o uso correto de medicamentos contínuos e usar soro fisiológico em caso de ressecamento dos olhos ou das narinas.
A preparação dos serviços de saúde diante de um evento anunciado com meses de antecedência, como o El Niño, envolve simulações de catástrofes, reforço de estoques de medicamentos, revisão de protocolos assistenciais e fortalecimento da vigilância epidemiológica, descreve Giovanetti. Tuon detalha que os hospitais também precisam preparar planos de contingência específicos – como a garantia de medicamentos para leptospirose e o treinamento de equipes para reconhecer doenças associadas a enchentes e calor extremo – além de reforçar o controle do Aedes aegypti e a vigilância laboratorial.
Apesar dos avanços recentes, os dois infectologistas concordam que o sistema de saúde brasileiro ainda precisa avançar. “O principal desafio é tornar a adaptação permanente, e não apenas uma resposta emergencial”, avalia Giovanetti. Para Tuon, o país ainda está atrasado nessa preparação e precisa de uma política permanente de manejo de eventos climáticos extremos, com investimento em atenção primária, vigilância epidemiológica e comunicação com a população. “Precisamos passar de uma lógica hoje muito reativa para uma lógica preventiva”, resume.
Fonte: O Tempo


















