Metade das pessoas já fizeram ‘consulta médica’ com IA: quais os riscos da prática?

A “consulta” é simples e pode ser feita de qualquer lugar. Em questão de minutos o “paciente” digita seus sintomas e recebe o “diagnóstico” da possível doença. Do outro lado, porém, no lugar de um médico humano está uma inteligência artificial. A prática é cada vez mais comum. Pesquisa liderada pela Talk Digital aponta que quase metade da população (49%) pede conselhos de saúde para as IAs. Especialistas alertam, entretanto, que usar plataformas como o ChatGPT ou o Gemini como “consultório” pode apresentar riscos.
“Pode haver equívoco no diagnóstico ou recomendação errada de medicamentos. Também podem ocorrer duas situações. Há casos em que a IA fala que está tudo bem, sendo que o paciente precisaria de atendimento imediato, ou situações em que a IA interpreta errado e afirma para o paciente que ele está com algo grave, quando não está”, aponta o médico infectologista Antônio Toledo, especialista em inteligência artificial e associado da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG).
Segundo ele, isso acontece porque as plataformas de IA são baseadas em dados de conhecimento geral, mas sem avaliação técnica. “Elas utilizam dados que estão disponíveis em páginas da internet e nas redes sociais. Porém, como não há controle de qualidade, algumas informações acessadas pela IA podem conter erros. Esse é o grande problema”, explica o especialista.
O médico também esclarece que a IA não consegue fazer uma das principais funções de um médico: investigar e interpretar contextos. “Um profissional é treinado para fazer as perguntas certas e entender a situação como um todo. Um paciente nem sempre saberá o que precisa informar à plataforma, levando a respostas incompletas. Por isso é tão importante o acompanhamento humano”, reforça.
Apesar do alerta, a plataforma também pode ser uma aliada do paciente quando é usada de forma responsável e complementar à consulta médica com um profissional. “Ela é muito útil para que o paciente se aprofunde em assuntos específicos. Por exemplo: a pessoa foi diagnosticada com diabetes e usa a IA para saber detalhes sobre a doença. Ela também pode ser usada para pesquisar sobre remédios e interações medicamentosas”, orienta.
De toda forma, segundo ele, o conselho é jamais utilizar apenas a IA como única forma de cuidar da saúde. “Não é recomendável substituir profissionais pela inteligência artificial. Até porque, há várias doenças com sintomas muito parecidos. Somente um especialista será capaz de chegar a um diagnóstico e tratamento correto do problema”, garante.
Quando o GPT vira “terapeuta”
A saúde física não é a única em risco em tempos de IA. Ainda de acordo com a pesquisa da Talk Digital, 58% dos entrevistados afirmaram usar as plataformas para resolver questões pessoais e emocionais, como fariam com um amigo ou terapeuta. Realizar “terapia” em plataformas de inteligência artificial, entretanto, é desaconselhável segundo profissionais da área.
“Por reunir conhecimentos gerais, a IA pode funcionar bem como uma ferramenta de psicoeducação. Uma pessoa pode entrar lá e entender melhor o que é um transtorno de ansiedade, por exemplo. O problema é colocar na ferramenta a responsabilidade de intervir em questões pessoais”, compara Samantha Alves, psicóloga e conselheira no Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG).
Isso porque, argumenta a especialista, a ferramenta não tem condições de entender o contexto de vida do paciente. “A terapia envolve o fator humano, o olho no olho, o tom de voz. Um psicólogo vai entender as causas do problema, a história de vida do paciente e poderá sugerir soluções personalizadas. É diferente da IA, que pode dar dicas genéricas, que acabam não funcionando e podem causar um reforço negativo naquela pessoa”, alerta.
Para quem não tem condições de recorrer à uma terapia por questões financeiras, Samantha dá algumas alternativas. “Há atendimentos gratuitos em escolas de universidades ou ONGs. Em caso de ideação suicida, há serviços como o Centro de Valorização da Vida que podem ajudar”, orienta.
Dados expostos
Além dos riscos à saúde, a prática de realizar “consultas” em plataformas de IA também pode deixar os dados dos pacientes mais vulneráveis. Gabriel Barros, engenheiro de software e cofundador da healthtech MYME, alerta que nem todas as plataformas têm estrutura adequada de segurança e controle de acesso. Portanto, muitos usuários não sabem como essas plataformas tratam, armazenam ou reaproveitam o que recebem.
“Hoje, fala-se desses dados usados coletivamente para continuar o treinamento dos modelos. Porém, em um futuro muito próximo, há também a preocupação com o modelo de negócio das empresas que irão vender esses dados para anunciantes”, diz.
De acordo com Barros, além dos vários vazamentos acidentais de dados que já aconteceram, o prejuízo maior acontece pelo caráter permanente que as informações de saúde possuem. Diferentemente de uma senha, elas não podem simplesmente ser alteradas.
“Um histórico médico exposto pode gerar constrangimentos, afetar relações pessoais e profissionais e, dependendo do contexto, até favorecer práticas discriminatórias. No caso de dados antigos não atualizados ou mesmo errôneos,pode haver impacto no valor pago pelo plano de saúde ou tempos de carência mais longos”, exemplifica.
Por isso, antes de compartilhar qualquer dado de saúde nas plataformas, ele aconselha “entender qual é a finalidade daquele sistema, quais são as políticas de tratamento dos dados e quais mecanismos de segurança existem para protegê-los”.
RITA: aliado da medicina
Do outro lado da mesa, médicos também utilizam a IA em suas rotinas para otimizar consultas e melhorar seus atendimentos. Um dos exemplos recentes é a plataforma RITA, lançada neste ano e desenvolvida com foco na realidade da Atenção Primária à Saúde (APS). Voltada exclusivamente para profissionais, a inteligência artificial escuta consultas médicas, faz a transcrição do áudio e gera o prontuário automaticamente.
“Na atenção primária, é essencial escutar o paciente e acolhê-lo durante a consulta. Fazer os registros durante a consulta quebra um pouco esse processo, pois você o médico precisa olhar para o computador enquanto o paciente está ali falando. Essa IA permite que o foco volte a ser a escuta atenta do paciente”, explica a médica de família e comunidade Luísa Chaves, idealizadora da RITA.
Ela também explica que o uso da tecnologia durante a consulta precisa ter consentimento do paciente e que o prontuário gerado sempre passa por revisão do profissional. “Percebemos uma redução de carga administrativa para os médicos e um ganho de atenção para os pacientes. Mesmo que o tempo de consulta seja o mesmo que antes, a qualidade do atendimento melhora”, observa.
Fonte: O Tempo


















