A cada dia, 142 crianças e adolescentes são internados após quedas no Brasil; veja os riscos

As quedas foram responsáveis, em média, pela internação de 142 crianças e adolescentes de até 14 anos por dia no Brasil ao longo dos últimos dez anos. Entre 2016 e 2025, foram 518.249 hospitalizações decorrentes desse tipo de acidente – uma média de 51.825 internações por ano
O número mantém as quedas como a principal causa de internações por acidentes nessa faixa etária durante todo o período. Os dados são de levantamento do Projeto Criança Segura, da Aldeias Infantis SOS, elaborado a partir de informações do Ministério da Saúde.
Somente em 2025, foram registradas 55.814 hospitalizações por quedas, o equivalente a 43,4% de todas as internações por lesões não intencionais entre crianças e adolescentes de até 14 anos. Houve ainda um aumento recente da ocorrência de acidentes envolvendo esse grupo etário. Entre 2024 e 2025, o número de hospitalizações passou de 121.933 para 128.466, um crescimento de 5,4%.
Quedas mudam conforme a idade
Embora estejam presentes em diferentes fases da infância, as circunstâncias que levam às quedas variam conforme o desenvolvimento da criança. Para a pediatra Cyntia Fiuza, a frequência desses acidentes está relacionada justamente ao processo de descoberta do ambiente e à aquisição de novas habilidades.
“As quedas são tão frequentes porque a infância é justamente uma fase marcada pela exploração do ambiente e pela aquisição progressiva de habilidades motoras. Nos primeiros anos, a criança está aprendendo a rolar, sentar, andar, correr e subir em objetos, enquanto equilíbrio, coordenação e percepção de risco ainda estão amadurecendo”, explica a médica.
Nos bebês, as quedas podem ocorrer do colo, da cama, do sofá, do trocador e de outros móveis. Conforme a criança cresce, escadas, janelas, móveis, brinquedos de playground e atividades recreativas passam a representar outros riscos. Entre escolares e adolescentes, esportes, bicicletas, patins e skates também ganham espaço.
Segundo a pediatra, essa vulnerabilidade não deve ser atribuída simplesmente a um eventual “descuido” dos responsáveis. “Existe uma vulnerabilidade própria de cada etapa do desenvolvimento. A prevenção mais eficaz é aquela que consegue antecipar aquilo que a criança será capaz de fazer a seguir e tornar o ambiente seguro antes que essa nova habilidade apareça”, evidencia.
Outras causas de hospitalizações
Além das quedas, o levantamento da Aldeias Infantis SOS aponta que entre o público de até 14 anos queimaduras responderam por 19,6% das hospitalizações por acidentes em 2025, seguidas por sinistros de trânsito (9,9%), intoxicações (3,3%), sufocações (0,5%), afogamentos (0,2%), acidentes com armas de fogo (0,1%) e outros acidentes (23,1%).
Entre essas categorias, as intoxicações tiveram o maior crescimento em relação a 2024, de 19,7%, seguidas por sufocações (10,8%) e queimaduras (7,4%).
Quais quedas exigem atenção imediata?
Nem toda queda provoca uma lesão grave, mas alguns tipos de acidente exigem maior atenção. De acordo com Cyntia, quedas de maior altura ou envolvendo energia, especialmente de janelas, varandas, escadas e estruturas elevadas, estão entre as situações mais preocupantes. O impacto na cabeça também é um fator de alerta, principalmente entre bebês e crianças pequenas.
Após uma pancada na cabeça, é importante procurar atendimento médico imediatamente se a criança apresentar:
- Perda de consciência;
- Convulsão;
- Vômitos repetidos;
- Sonolência excessiva ou dificuldade para acordar;
- Confusão;
- Comportamento muito diferente do habitual;
- Dor de cabeça intensa ou que piora;
- Dificuldade para falar ou andar;
- Alteração da coordenação ou da força;
- Saída de sangue ou líquido pelo nariz ou pelos ouvidos.
A atenção também deve ser redobrada quando há deformidade de um membro, dor muito intensa, incapacidade de movimentar ou apoiar um braço ou uma perna, além de sangramento importante.
“É importante lembrar que a gravidade nem sempre pode ser determinada apenas pela aparência inicial da criança. Algumas manifestações podem surgir nas horas seguintes”, alerta a pediatra.
Registros ainda não detalham quase metade das quedas
Além da quantidade de hospitalizações, o levantamento chama atenção para uma dificuldade na própria identificação dos acidentes. Em 2025, 25.774 hospitalizações por quedas não tiveram o tipo de acidente especificado, o equivalente a 46,2% dos registros. Considerando todo o período de 2016 a 2025, os casos sem especificação representaram 48,1% das ocorrências.
“Os números mostram que não podemos naturalizar acidentes e sinistros que, em sua grande maioria, poderiam ser evitados. A persistência das quedas na década analisada, bem como o crescimento de ocorrências como intoxicações e a quantidade de registros de casos sem especificação revelam que precisamos combinar informação, ambientes mais seguros, supervisão adequada e políticas públicas capazes de atuar sobre os diferentes fatores de risco presentes em cada etapa da infância, apoiando as famílias para um cuidado eficaz”, afirma José Carlos Sturza de Moraes, pesquisador e ponto focal do Projeto Criança Segura da Aldeias Infantis SOS.
Como reduzir o risco dentro de casa
A prevenção começa antes mesmo de a criança desenvolver uma nova habilidade, segundo Cyntia. Isso significa adaptar os ambientes levando em consideração não apenas o que ela já consegue fazer, mas também aquilo que poderá passar a fazer nos próximos dias ou semanas.
Entre os bebês, a recomendação é não deixá-los sozinhos sobre camas, sofás, trocadores ou outras superfícies elevadas, mesmo antes de começarem a rolar. Carrinhos, cadeirões e equipamentos semelhantes devem ser utilizados com os cintos de segurança corretamente posicionados.
Janelas e varandas precisam de dispositivos de proteção adequados, enquanto camas, sofás, cadeiras e outros móveis que possam servir de apoio para a criança escalar devem ficar longe das janelas. A pediatra ressalta que telas comuns de janela não substituem dispositivos específicos de segurança. Escadas também devem receber barreiras apropriadas quando há crianças pequenas, e móveis altos, estantes e cômodas precisam estar fixados para evitar tombamentos.
Veja dicas para reduzir o risco de quedas em casa:
- Mantenha áreas de circulação livres de brinquedos e objetos;
- Reduza superfícies escorregadias;
- Use recursos antiderrapantes em áreas molhadas;
- Garanta boa iluminação nos ambientes.
A supervisão, porém, precisa ser ativa. “Estar fisicamente perto da criança não significa necessariamente estar supervisionando se a atenção do adulto estiver voltada para o celular ou dividida com várias outras tarefas”, afirma Cyntia.
Para a pediatra, o objetivo não é restringir a exploração e a autonomia, mas garantir que elas aconteçam em ambientes adequados a cada fase do desenvolvimento.
Sufocações lideram mortes por acidentes
O levantamento também analisou as mortes de crianças e adolescentes de até 14 anos em 2024. Naquele ano, foram registradas 3.341 mortes nas oito categorias de acidentes analisadas.
As sufocações foram a principal causa, com 1.039 óbitos (31,1%), seguidas pelos acidentes de trânsito, com 922 mortes (27,6%), e pelos afogamentos, com 850 (25,4%). Juntas, essas três causas responderam por aproximadamente 84,1% das mortes registradas no período.
A idade também interfere no perfil das vítimas. Crianças de 1 a 4 anos concentraram 1.095 mortes (32,8%), enquanto os menores de 1 ano somaram 930 óbitos (27,8%). Entre as sufocações, 75% das mortes vitimaram bebês. Já os afogamentos concentraram vítimas de 1 a 4 anos.
Para Sturza, os dados reforçam a necessidade de uma atuação conjunta para reduzir os riscos. “A Aldeias Infantis SOS defende que famílias, profissionais de saúde, gestores públicos e demais atores envolvidos na proteção da infância atuem conjuntamente para engajar a sociedade em campanhas de conscientização e promover ambientes mais seguros e efetivamente protetores. O desafio, para todos nós, é fomentar uma cultura de cuidado e de responsabilidade coletiva sobre a segurança e o bem-estar de nossas crianças e nossos adolescentes, para que possam se desenvolver plenamente como indivíduos”, conclui o pesquisador.
Fonte: O Tempo

















