Setembro Amarelo: suicídio entre jovens de 10 a 14 anos registra aumento nas Américas

Esta reportagem contém conteúdo sensível que pode ativar gatilhos relacionados a tópicos como saúde mental e suicídio. Se você precisa de ajuda, ligue para o número 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), e busque apoio psicológico o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito.
O dia 10 de setembro foi a data escolhida para o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio — estipulado pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) e endossada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população sobre a importância da saúde mental. O autoextermínio entre jovens e adolescentes nas Américas aumentou entre os anos 2000 e 2021, e é a terceira causa de morte entre pessoas de 10 a 24 anos.
Os dados são de um novo estudo, publicado em 2026 pela The Lancet Regional Health Americas, divulgado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), entidade que integra a Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2021 foram registrados 18.157 casos de suicídio envolvendo adolescentes e jovens na região. Embora três a cada quatro óbitos por suicídio tenham acontecido entre pessoas do sexo masculino, o aumento tem sido mais rápido entre as mulheres. O crescimento mais acentuado foi indicado em um grupo mais jovem, de 10 a 14 anos.
A pesquisa destaca, ainda, que vários fatores podem estar associados a esse aumento, como problemas de saúde mental (depressão e ansiedade que surgem cada vez mais cedo), uso de substâncias, exposição excessiva a ambientes digitais e o cyberbullying. As evidências também indicam que muitos desses fatores são preveníveis ou tratáveis, especialmente se identificados precocemente.
Dados das Estimativas Globais de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 35 países entre 2000 e 2021, indica que a taxa de mortalidade por suicídio nesse grupo etário (10-24 anos) aumentou de 5,7 para 7,84 mortes por 100 mil habitantes — representando um aumento anual médio de 1,48%. As tendências variaram entre países e sub-regiões, mas o aumento foi generalizado, com níveis particularmente altos na América do Norte e em alguns países do Cone Sul.
“Por si só, o adolescente já passa por muitas mudanças. Então, é esperado uma insegurança, oscilação de humor, momentos que ele fica mais sensibilizado, e a gente precisa prestar atenção se, de alguma maneira, ficar mais intenso, mais persistente e trazer prejuízos, né, significativos nessa rotina”, explicou a psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Laura Lobo, em entrevista à reportagem.
Exposição excessiva a ambientes digitais
A busca por pertencimento é marcante em toda a adolescência. Redes sociais e comunidades virtuais podem atuar em diferentes papéis nesta fase da vida, sendo uma rede de apoio, ou se transformando em um fator de risco.
Uma adolescente de 13 anos morreu, em 22 de julho deste ano, dentro de casa, onde vivia com a família, em Naviraí, Mato Grosso do Sul. A investigação aponta que a jovem foi ameaçada, manipulada e coagida por integrantes de um grupo virtual no Discord — tratando o caso como suicídio induzido. A prática foi denominada pela Polícia Civil como “escravização virtual”. A plataforma está sendo investigada, envolvendo ações policiais, sanções administrativas do governo e discussões sobre regulação digital.
“Tudo tem dois lados. Para o adolescente introvertido, com ansiedade social, com alguma dificuldade, [as redes sociais] é um facilitador para conversar, construir amizades, ter uma rede de apoio. Por um outro lado, isso pode aumentar uma exposição a bullying, a violência, a conteúdos aí relacionados a algo que não é propício para a idade deles”, explicou Laura Lobo.
A psicóloga destacou, ainda, a importância de fiscalizar ambientes digitais e a presença de adolescentes neles. “Acredito que é mais interessante pros responsáveis, pra quem está à frente, não é simplesmente tirar o adolescente daquele meio, que isso hoje já é realidade, mas ajudar ele a ter senso crítico, a construir essa relação de maneira mais segura a ele, a ele conseguir avaliar. Isso vai envolver diálogo, orientação, supervisão adequada à idade dele e também a construção de outras redes para além desse ambiente virtual. Não é o único espaço, é mais um espaço para ser usado com moderação e equilíbrio”.
Papel dos pais e responsáveis
Colocando em evidência o tema da campanha do Setembro Amarelo em 2026 — “Escutar é estar presente” — promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), a especialista destacou qual é o papel dos pais e responsáveis: “escutar mais, mostrar que está ali, que você é um contato seguro”.
“Entender que nós também já fomos adolescentes. Entender o quão é confuso, o quão o adolescente se sente inseguro, o quão tudo é muito novo, o quão ele ainda, né, está em desenvolvimento”, disse Laura Lobo.
Menina de 13 anos induzida ao suicídio por grupo no Discord
Uma adolescente de 13 anos morreu em 22 de julho, dentro de casa, onde vivia com a família, em Naviraí, Mato Grosso do Sul. Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio, mas a investigação identificou que ela havia sido ameaçada, manipulada e coagida por integrantes de um grupo virtual no Discord.
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (PCMS) passou a tratar o caso como homicídio. Os criminosos procuravam, principalmente, crianças e adolescentes com perfis públicos nas redes sociais. Usando informações disponíveis sobre as vítimas na internet, criavam perfis falsos, conquistavam a confiança delas e as levavam para outras plataformas — como Discord e Telegram.
A prática foi denominada pela Polícia Civil como “escravização virtual”. Depois da aproximação, os criminosos conseguiam informações pessoais e passavam a ameaçar as vítimas para obrigá-las a cumprir ordens e desafios violentos.
Em 4 de agosto, a PCMS deflagrou a “Operação Lívia”, conjunta com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, e um homem, de 18, foram alvos de mandados em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro. O suspeito de chefiar o grupo foi identificado como um adolescente de 14 anos, apreendido no Rio.
Durante as buscas também foram localizados celulares, computadores, armas, materiais de apologia ao neonazismo e conteúdos de abuso sexual infantil. Os investigados são suspeitos de homicídio qualificado e organização criminosa.
A operação revelou que outra adolescente teria sido induzida à automutilação e ao suicídio durante umas transmissão, mas deixou a chamada. A investigação aponta, ainda, que o grupo planejava uma nova ação com outra vítima.
Em coletiva de imprensa sobre o caso, o coordenador do Ciberlab, Alessandro Barreto, classificou o que foi encontrado como um “espetáculo de horrores”. Segundo ele, após uma das transmissões, integrantes do grupo chegaram a fazer uma enquete perguntando se os participantes queriam mais e planejavam uma nova ação para o dia seguinte.
A investigação também apontou falhas nos mecanismos de proteção de menores. Segundo o Ciberlab, crianças e adolescentes conseguiam acessar os ambientes onde ocorriam as transmissões sem uma verificação correta de idade. Um dos adolescentes investigados chegou a informar 1877 como ano de nascimento — o que indicaria uma idade de 148 anos.
Passos para romper o silêncio
Para o jovem que está enfrentando um momento de crise hoje, a psicóloga relembra um passo importante para romper o silêncio: o Centro de Valorização da Vida. É possível realizar ligações gratuitas, sete dias por semana, 24 horas por dia, por meio do número 188.
“Agora, se isso for feito com pessoas próximas, é dividir o que tem sentido. Muitas vezes, o contato ali com o responsável vai ser pedindo para ir ao médico, né, o psiquiatra, ou pedindo para conversar com o terapeuta, às vezes para conversar com alguém na escola, alguém que seja referência. O mais seguro nesse momento é ele saber que ele está sendo acolhido, é ele se sentir seguro, ele confiar na pessoa para com quem ele vai se abrir”, explicou Laura Lobo.
Setembro Amarelo: peça ajuda
O Setembro Amarelo é uma campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida. Não hesite em pedir ajuda, você pode precisar de alguém que te acompanhe e te auxilie a entrar em contato com os serviços de suporte.
Como buscar ajuda?
- Centro de Valorização da Vida (CVV): número 188, a ligação é gratuita.
- Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (UBS), do Sistema Único de Saúde (SUS).
- Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em caso de emergências: número 194, a ligação é gratuita.
Fonte: Itatiaia

















