• loja.muzambinho.com
  • muzambinho.com.br

Quando estar conectado nos desconecta

Ed Gonçalves15 de setembro de 20269min0
celular-6a5a1f3b87392a98
por Ed Gonçalves

Estamos cada vez mais dependentes das telas. O celular acorda conosco, acompanha nosso café, vai para o trabalho, para a escola, para a cama e, muitas vezes, permanece na nossa mão até o último minuto antes de dormir. Qualquer espaço vazio é imediatamente preenchido por uma tela. Se estamos esperando alguém, pegamos o celular. Se estamos entediados, pegamos o celular. Se estamos ansiosos, pegamos o celular. Se não temos nada para fazer, pegamos o celular. Parece que já não sabemos simplesmente estar em algum lugar sem precisar de alguma coisa acontecendo na tela.

Estamos vivendo em torno de estímulos rápidos, constantes e cada vez mais intensos. Rolamos a tela, recebemos uma informação, passamos para outra, vemos um vídeo, uma notícia, uma propaganda, uma mensagem, outro vídeo e, quando percebemos, uma hora desapareceu. Nosso cérebro se acostuma com a novidade permanente e começa a ter dificuldade para permanecer diante daquilo que exige tempo, atenção e paciência.

Ler um livro parece difícil. Assistir a um filme sem mexer no celular parece difícil. Ficar alguns minutos sem fazer nada parece difícil. Uma conversa mais longa pode parecer cansativa. Até mesmo esperar se tornou difícil. Estamos sempre procurando o próximo estímulo. E o mais preocupante é que já não percebemos isso como um problema. Achamos normal não conseguir ficar cinco minutos sem olhar para uma tela.

Basta observar as pessoas em um restaurante, em uma praça, dentro de um ônibus ou em uma sala de espera. Muitas vezes, todos estão juntos e cada um está dentro do próprio aparelho. Duas pessoas podem estar sentadas uma diante da outra, mas a atenção de ambas está em algum lugar distante. Até mesmo nos momentos que deveriam ser especiais, o celular aparece. Em um show, por exemplo, alguém pode passar boa parte da apresentação filmando em vez de assistir. Não porque necessariamente queira guardar aquela lembrança, mas porque existe uma necessidade de registrar, publicar e mostrar que esteve ali. É como se viver o momento já não fosse suficiente.

E isso passou a atingir também nossas relações. Estamos perdendo a capacidade de oferecer presença. Conversamos olhando para uma tela. Ouvimos alguém enquanto respondemos uma mensagem. Estamos com a família, mas acompanhamos as redes sociais. Encontramos amigos, mas continuamos verificando quem publicou alguma coisa. Aos poucos, vamos ensinando às pessoas que estão ao nosso lado que elas podem esperar, porque sempre existe alguma coisa mais urgente acontecendo no celular.

O paradoxo é que nunca tivemos tantos meios de comunicação e nunca fomos tão incapazes de simplesmente estar com alguém. Podemos conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo, mas não conseguimos permanecer alguns minutos em uma conversa sem conferir o telefone. Sabemos o que desconhecidos estão fazendo, onde estão viajando e o que estão pensando, enquanto às vezes sabemos cada vez menos sobre aquilo que acontece com as pessoas que fazem parte da nossa própria vida.

As redes sociais também criaram uma necessidade permanente de exposição. Não basta viver alguma coisa. É preciso mostrar. Não basta estar feliz. É preciso parecer feliz. Não basta viajar, comer, sair ou encontrar alguém. Existe uma pressão silenciosa para transformar a experiência em imagem. E, quando tudo precisa ser registrado, compartilhado e observado, corremos o risco de transformar a própria vida em uma espécie de vitrine.

O problema, portanto, não é simplesmente o tempo que passamos diante de uma tela. É aquilo que acontece conosco durante esse tempo. É a atenção que se fragmenta, a impaciência que cresce, a dificuldade de concentração, o incômodo diante do silêncio e do tédio, a necessidade permanente de estímulo. É perceber que podemos passar horas consumindo pequenos pedaços de informação e, ao final, sentir que não fizemos absolutamente nada.

É necessário recuperar uma coisa que parece cada vez mais rara: a capacidade de ficar. Ficar em uma conversa. Ficar em uma leitura. Ficar em uma paisagem. Ficar com os próprios pensamentos. Ficar ao lado de alguém sem precisar dividir a presença com uma tela. Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de impedir que ela ocupe todos os espaços que antes pertenciam à nossa atenção, às nossas relações e à nossa própria experiência de viver.

Porque existe uma diferença enorme entre usar uma tela e precisar dela. E o primeiro sinal de que alguma coisa está errada é quando já não conseguimos perceber a diferença. O celular deveria ser uma ferramenta que carregamos conosco. Não deveria ser o lugar para onde fugimos sempre que a vida fica silenciosa.

E nesse sentido, uma pergunta deve ser feita: se estamos sempre olhando para uma tela, quando estamos realmente olhando para a nossa própria vida? Porque o tempo que passamos diante dela não volta. E nenhum aplicativo, nenhuma fotografia e nenhuma postagem será capaz de devolver os momentos que deixamos de viver enquanto estávamos ocupados demais olhando para o celular.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

  • Muzambinho.com

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *