Câncer de pulmão: 9 em cada 10 pacientes são diagnosticados em estágio avançado no SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta um desafio quando o assunto é câncer de pulmão. Cerca de 91% dos pacientes só descobrem a doença quando ela já está em estado avançado, de acordo com dados da Oncoguia. O número é alarmante, uma vez que o diagnóstico tardio dificulta o tratamento e eleva a mortalidade.
“O diagnóstico tardio representa menos qualidade de vida para o paciente, que precisará de mais suporte de medicamentos e nutricional. Ele também terá menos possibilidade de tratamento, pois seu estado de saúde comprometido o impede de optar por outros tratamentos que poderiam ser mais adequados se ele estivesse na fase inicial”, explica o oncologista Vladmir Claudio Cordeiro de Lima, médico do A.C.Camargo Cancer Center.
O médico foi um dos participantes de um painel promovido pela Abbott, empresa global de cuidados com a saúde, durante o Congresso ESMO (European Society for Medical Oncology Congress) 2026, ocorrido em Madri neste mês. Durante a conversa, especialistas do Brasil, México e Peru discutiram os desafios relacionados ao diagnóstico e ao acesso ao tratamento da doença.
Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o número estimado de novos casos para o Brasil para cada ano do triênio de 2026 a 2028, é de 35.380 casos. Trata-se do terceiro tipo mais recorrente em homens e o quarto em mulheres. No país, só em 2024, ocorreram 32.557 óbitos por conta da doença.
“No Brasil, onde aproximadamente 75% da população depende do SUS, o diagnóstico pode levar mais de 12 semanas, em comparação com três a quatro semanas na rede privada. Após o diagnóstico, o tratamento pode levar mais seis semanas na rede pública”, aponta.
Para ele, um dos motivos disso é o fato de muitos médicos, principalmente os generalistas, ainda não serem estimulados a pensarem em câncer de pulmão durante a investigação da saúde de seus pacientes.
“A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica passou muitos anos educando o oncologista clínico sobre a importância do diagnóstico e tratamento precoces. Agora, estamos percebendo a importância de também educar o médico generalista, o pneumologista e o clínico geral a também ter esse olhar. É muito comum que alguns profissionais tratem os sintomas como problemas infecciosos, o que atrasa o diagnóstico e prolonga o tratamento errôneo”, diz.
Segundo ele, já foi proposto ao Ministério da Educação que essa questão oncológica seja inserida na grade curricular, para que os médicos se tornem mais preparados para desenvolver esse olhar.
“Também precisamos conscientizar mais a população. Geralmente, os debates em torno do câncer, de maneira geral, só surgem quando algum famoso revela algum diagnóstico”, diz.
Câncer de pulmão de pequenas células: subtipo perigoso
Outro tema discutido durante o painel foi a importância do diagnóstico precoce do câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa. Ele é um dos subtipos mais agressivos da doença e representa entre 10% e 15% dos casos de câncer de pulmão.
“No caso desse subtipo, esses atrasos são ainda mais críticos, pois a doença progride rapidamente e, muitas vezes, de forma silenciosa, fazendo com que muitos pacientes sejam diagnosticados quando já dispõem de poucas oportunidades para se beneficiar de um tratamento adequado”, afirma.
Durante o painel, também foi discutido como, atualmente, a imunoterapia vem transformando o manejo da doença e ampliando as possibilidades terapêuticas para os pacientes.
“Durante décadas, a quimioterapia foi a principal opção de tratamento para esse tipo de câncer. Dados de um estudo internacional de fase III mostraram que a combinação de imunoterapia com quimioterapia proporciona ganho de sobrevida em comparação ao tratamento exclusivo com quimioterapia”, revela.
No câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, controlar a progressão da doença também significa reduzir sintomas, preservar a autonomia dos pacientes, reduzir hospitalizações e ganhar mais tempo de vida com qualidade.
“Depois de quase 25 anos sem avanços relevantes no tratamento dessa doença, os progressos científicos recentes trazem uma nova perspectiva e renovam a esperança para pacientes e suas famílias”, comemora o médico.
Saiba mais sobre a doença
O câncer de pulmão pode começar nas células que revestem os brônquios e partes do pulmão, como os bronquíolos e alvéolos. Dentre os diferentes tipos deste câncer, 85% dos casos são do tipo não pequenas células.
Os principais fatores de risco são o tabagismo e a exposição passiva ao tabaco, responsável por cerca de 85% dos casos diagnosticados. Outros fatores de risco importantes são aqueles associados às exposições ocupacionais e ambientais.
Fonte: O Tempo

















