El Niño pode ser o mais forte desde 1950 e provocar secas e enchentes no Brasil

O Brasil poderá enfrentar um período de extremos climáticos nos próximos meses, com chuvas acima da média em algumas regiões e agravamento da seca em outras. O fenômeno El Niño, responsável por alterações nos padrões de temperatura e precipitação, deve atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com possibilidade de se tornar o mais intenso desde 1950.
As informações constam na quinta edição do boletim Painel El Niño 2026–2027, divulgada em outubro e elaborada por sete órgãos federais, entre eles o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
De acordo com o documento, a agência norte-americana de monitoramento oceânico e atmosférico (NOAA) confirmou o estabelecimento das condições de El Niño em 11 de junho deste ano. Desde então, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial se intensificou, com registros de temperaturas superiores a 3°C acima da média em determinadas áreas.
A previsão indica que o fenômeno deve permanecer ativo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, com enfraquecimento gradual nos meses seguintes. Entretanto, seus efeitos sobre as condições atmosféricas poderão persistir mesmo após a redução da intensidade.
Quais regiões serão mais afetadas pelo El Niño?
Segundo o boletim, os impactos do El Niño devem ocorrer de maneiras diferentes pelo território brasileiro. Sul e partes do Sudeste e Centro-Oeste apresentam maior probabilidade de chuvas acima da média, grande parte do Norte e áreas do Nordeste poderão enfrentar períodos de seca, com precipitações abaixo dos níveis históricos.
Na Região Sul, o principal risco está relacionado à ocorrência de enchentes e inundações. Os três estados já apresentam condições favoráveis à elevação dos níveis dos rios, com registros de inundações em diferentes municípios ao longo de setembro.
No Sudeste, a previsão indica chuvas acima da média em áreas de São Paulo e Minas Gerais. O risco de cheias também poderá aumentar em janeiro de 2027, especialmente nas bacias dos rios Doce e Paraíba do Sul.
Em Minas Gerais, o Triângulo Mineiro e o centro-sul do estado devem registrar precipitações acima da média, enquanto o norte e o nordeste mineiro poderão enfrentar menor disponibilidade de água.
Já nas regiões Norte e Nordeste, a combinação de temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média poderá intensificar a seca, prejudicar a agricultura e aumentar o risco de incêndios florestais. As temperaturas também devem permanecer acima da média em quase todo o Brasil, principalmente na Região Norte. O Rio Grande do Sul, por outro lado, apresenta tendência de temperaturas abaixo dos valores habituais.
Número de municípios em seca extrema aumenta no Brasil
O agravamento da seca já pode ser observado em diferentes partes do país. Segundo dados do Cemaden apresentados no boletim, o número de municípios classificados em situação de seca extrema passou de quatro, em agosto, para 68 em outubro de 2026, considerando os dados parciais do último mês. No mesmo período, a quantidade de municípios em seca severa aumentou de 153 para 232.
A situação é especialmente preocupante no Nordeste, com destaque para Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco. Na Região Norte, Roraima e Amazonas também registraram aumento expressivo no número de municípios afetados.
Os impactos atingem principalmente pessoas que praticam agricultura familiar, assim como comunidades que dependem da disponibilidade de água. Em estudo feito no mês de outubro, o Cemaden identificou 380 municípios com algum nível de alerta para os efeitos da seca. O documento também aponta que aproximadamente 86 mil indígenas vivem em áreas atendidas por polos classificados em situação de seca severa, principalmente em Roraima e no Amazonas.
Incêndios florestais também preocupam autoridades
Outro ponto de atenção é o aumento dos registros de fogo na Amazônia Legal. Em agosto, foram contabilizados 6.542 eventos, número que subiu para 12.659 em setembro. Até 23 de outubro, já haviam sido registrados outros 11.662 eventos. Embora a chegada da estação chuvosa deva contribuir para a redução gradual dos incêndios, a previsão de precipitações abaixo da média poderá dificultar esse processo.
Para o trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o Cemaden classificou 307 municípios em nível de Alerta Alto para risco de incêndio e outros 464 em Alerta, principalmente na Região Norte e em áreas do interior do Nordeste.
Agricultura também poderá sofrer impactos
As mudanças climáticas associadas ao El Niño também poderão afetar a produção de alimentos no Brasil. No Sul, o excesso de chuvas pode dificultar a colheita do trigo, atrasar a semeadura da soja e comprometer a qualidade dos grãos. No Nordeste, a escassez de água pode prejudicar o desenvolvimento das lavouras de milho e feijão, além de reduzir a disponibilidade de pastagens para os rebanhos.
Em Minas Gerais e São Paulo, as chuvas acima da média poderão favorecer o desenvolvimento de culturas como soja, milho, feijão e café. Entretanto, o excesso de umidade também aumenta o risco de doenças nas plantações e pode dificultar as atividades agrícolas.
O que é o ‘El Niño’
O El Niño é um fenômeno climático natural, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente nas regiões central e leste. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e a distribuição de umidade na atmosfera, provocando mudanças nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No Brasil, o fenômeno costuma favorecer chuvas mais intensas na Região Sul e períodos de seca nas regiões Norte e Nordeste. Entretanto, seus efeitos variam conforme a intensidade do evento, a época do ano e as condições atmosféricas.
O El Niño sempre existiu?
Diferentemente do que se pode imaginar, o fenômeno existe há milhares de anos, muito antes da industrialização e das mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas.
O El Niño faz parte de uma oscilação natural do sistema climático conhecida como El Niño–Oscilação Sul (ENOS), dividida em três fases: El Niño, caracterizada pelo aquecimento das águas; La Niña, marcada pelo resfriamento; e uma fase neutra.
A frequência e a intensidade do fenômeno ainda são investigadas por cientistas. Entretanto, pesquisadores observam que, desde 1950, os eventos apresentam maior intensidade em comparação com períodos anteriores. Apesar disso, ainda não há confirmação científica de que o aquecimento global esteja diretamente relacionado ao aumento da frequência ou da intensidade do El Niño.
Alerta
Diante das previsões, os órgãos federais recomendam que estados e municípios reforcem o monitoramento das condições meteorológicas e atualizem seus planos de contingência. À população, a Defesa Civil orienta acompanhar os avisos oficiais, manter atualizado o cadastro para recebimento de alertas e conhecer as áreas de risco e rotas de fuga de cada localidade.
Fonte: O Tempo

















